segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Conto - Madalena

Ela o deixou morrendo na cozinha e foi olhar as fotos na estante. Uma linha do tempo traçada na prateleira com momentos pinçados de sua vida. O casamento, as meninas pequenas, viagens a lugares esquecidos, as meninas já crescidas. Percebeu que o sorriso da noite do casamento não se repetia, ao contrário, vinha decrescendo com os anos, como se o rosto fosse perdendo aquela memória. Chico não aparecia em nenhuma das fotos. Ele odiava fotografias. Odiava sorrir para câmeras. E Chico não fazia nada que não quisesse. Ela tinha aceitado isso com relativa paciência até aquela noite, até alguns minutos atrás.

Apagou o cigarro na mesa no cinzeiro no aparador. Se perguntou por que demorou tanto tempo para fazer aquilo.

Lembrou das desculpas que deu ao longo dos últimos vinte cinco anos para ainda estar com o marido. Chico gosta de você, ele apenas não sabe demonstrar. Se não gostasse terminaria ao invés de continuar o relacionamento. Ele te xinga porque está bravo, não te acha burra de verdade. Ele está flertando com outra mulher, mas não significa nada para ele, afinal ele ainda está com você. Você é a mais importante... Sempre uma nova desculpa para se cegar. Um dia a cada vez, como um alcoólatra. Sempre imaginou como seria mata-lo.

Imaginava como seria matar ele e a vadia com quem a tinha traído. Vadia. Casada e ainda se fingindo de recatada mãe de família quando mandava recados se oferecendo para seu marido. Não sabia quem era mais digno de pena. Ela mesma ou o marido da vadia que nem ao menos sabia com quem tinha se casado. Ela não estava cega mas continuava lá. Começou a se justificar que não fazia por ele, nem pelas crianças que já estavam grandes agora e já haviam saído de casa. Fazia por que ela queria viver o amor que ela sentia e não desistiria do sentimento como se fosse descartável. Fazia por ela mesma.

Hoje ele chegou bêbado novamente, a xingou como sempre dos piores nomes sem nenhum motivo. Pôs seu jantar a mesa, ele o atirou no chão. A chamou de puta e disse que a mataria. Sempre dizia isto. Cão que ladra não morde, nunca lhe levantou a mão. Mas os xingamentos a matavam por dentro. Numa lentidão profunda sentiu por muito tempo o sentimento do amor virar ódio de forma lenta e suave. Quase podia sentir afeição pelo sentimento da dor, uma vez leu em um livro a síndrome do “Coitadinho de mim” pessoas que gostavam de reclamar da vida para receber simpatia dos outros por serem vítimas.

Nunca abriu a boca para reclamar com o marido, mesmo quando este estava sóbrio. Nem reclamava de seus maus tratos, nem com ninguém. Costumava fazer isto no começo do namoro, diziam simplesmente: Termine. Arranje outra pessoa, encontre um novo amante.

Ninguém entendia, não conseguia se imaginar com outra pessoa após tantos anos. Ele era seu eterno namorado, sempre seria. Terminar e depois? Com quem iria conversar? As pessoas dão conselhos e desaparecem de suas vidas. Dizem o que fazer da sua quando não sabiam o que fazer da delas próprias. Eram todos hipócritas. Acabou por se distanciar de todos aqueles que se diziam seus amigos, sentia-se só. Mas não triste. Já havia se acostumado a isto também.

Mas hoje. Justo hoje, ele tinha que lhe dizer aquilo. Depois de todos estes anos aturando o bode velho infeliz, ele disse que ia deixa-la! Que tinha arrumado alguém. Uma secretária do escritório com metade da sua idade, uma vadiazinha infeliz que só queria ganhar dinheiro, porque o imbecil do Chico era impotente desde os meados dos quarenta anos. Francamente.

Não pensou duas vezes, pegou uma dose cavalar de veneno de rato. Sempre o teve, sempre quis mata-lo. Era bom ter tudo a mão, sempre foi uma mulher prática. Agora ele se esvaia em merda e vômito pela cozinha. Fedia como devia feder sua alma podre. 

Redigiu uma carta e a deixou diante do corpo, sempre soube imitar sua letra. Falou que não suportou perder a esposa e preferia morrer a viver sem ela. Subiu as escadas, pegou sua pequena mala e algumas roupas. Colocou outra carta sobre a cama. Uma com a própria letra, dizendo que passaria alguns dias com sua filha já que havia descoberto a traição e que o marido não a procurasse mais.

Não havia impressões digitais no vidro do veneno. Enquanto saia e se dirigia ao ponto de ônibus assobiava, era um lindo dia. E ela era a vítima. Afinal “Coitadinha” da esposa traída e mãe exemplar que nunca fez nenhum mal a alguém. 


E esse foi um conto de Josy Santos!

O conto acima foi escrito para uma oficina colaborativa (ótima!) do Eric Novelo (Exorcismos, amores e uma dose de blues). Um dos exercícios da oficina foi pedir aos participantes que criassem um parágrafo que contasse uma história. Na semana seguinte Eric nos enviou os parágrafos e disse para escolhermos o de outro autor e continuássemos a história a partir dai. Sendo assim o primeiro parágrafo não é de minha autoria e sim de um participante da oficina. Sendo o conto desenvolvido em cima deste começo. 

Me aventurando no mundo das letrinhas há cerca de um ano, incentivada pela Dany Fernandez.
Publiquei três contos em duas coletâneas desde o ano passado e aos poucos vamos indo cada vez mais.
Espero que gostem da leitura ou não e comentem e deixem sua opinião!
Abraços ;)
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