terça-feira, 19 de julho de 2016

Conto - Lousiene

Imagem: wallpaperscraft.com

Era bom conversar.

Sempre fui do tipo que ouve. Mas nunca pensei que pudesse ser ouvido. Veja bem, para um cara normal eu não sou muito de falar. Ainda que silencioso aqui fora, minha mente explodia em falatórios intermináveis. Dentro do meu imaginário, as pessoas seguiam um roteiro sólido de interlucubrações, reticências, diálogos e travessões.

Enquanto eu divagava, os meus interlocutores estendiam suas narrativas, ora enfadonhas, ora interessantes. O fato era que eu sabia, lá no fundo — e também no raso — eles não pretendiam me ouvir.  Não se tratava uma via de mão dupla. Eu era apenas sua caixa de ressonância.

Embora meus ouvidos fossem ótimos, minhas cordas vocais travavam, ressecadas, esquecidas de como verborrar.

Estou lhe incomodando com esse papo chato, querida? Até que para alguém que não fala estou me excedendo hoje... Acho que é o vinho. Sabia que é a primeira vez que tomo vinho? Nunca tive oportunidade...

Onde estávamos? Ah, sim! Minha infância foi tranquila. Meus pais morreram cedo e minha avó me criou. Ela era surda. Na escola nada demais, eu simplesmente não estava ali. Na faculdade a mesma coisa. Sei lá, sempre achei que havia uma bolha me envolvendo e ninguém conseguia me ver, me ouvir.

Até que um dia, na faculdade, encontrei todos os outros. Lembro da primeira vez que dissecamos um corpo. O Enjoo de alguns, a repulsa de outros. Um rapaz desmaiou e não o vi mais depois disso.

Acabei me acostumando com essas amizades curtas de dois ou três dias. Gostei de uma ou outra garota, mas nunca levamos nada à diante. Talvez seja essa minha mania de falar pouco e ainda assim com raras pessoas.
Só você faz isso comigo, Lousiane. Esse negócio de me deixar a vontade, de me fazer falar de coisas que nem eu mesmo sabia ter guardado.

O que desejo lhe dizer minha querida, nessa noite tão especial é que você é o meu grande amor. Apaixonei-me à primeira vista. Lembro de quando lhe tirei da mortalha plástica do instituto.

Aquela pele pálida, os cabelos castanhos, quase louros. Hoje olho para você, tão linda, aqui na minha frente e me pergunto como deve ter sido sua história antes de morrer. Esses seus olhos verdes, são perfeitos! Você gostou deles, querida? Tive que encomendar de fora. Valeu apena, não é mesmo? Está estonteante.

Você passou um bom tempo no instituto comigo. Descobrir sua causa mortis foi simples. Overdose. Imaginei muitas histórias para você e em nenhuma delas uma mulher tão linda e tão saudável morria por drogas. Será que um dia vai me contar, querida?

Os dias foram passando e ninguém apareceu para reclamar seu corpo. Então chegou o aviso de que você seria enterrada como indigente. Senti uma tristeza tão profunda e pensei que dessa vez morreria também.

Na madrugada do mesmo dia em que te levaram embora, pulei o muro do cemitério e identifiquei a vala pública onde a deixaram. Eu cuidei de tudo. O caminho para casa foi de pura ansiedade. Só você mesmo para me obrigar a cometer uma contravenção dessas! Se isso não é amor, o que mais seria?

Mal chegamos, usei todo o meu talento para lhe imortalizar. Você está perfeita Lousiene e a terra jamais poderá se alimentar de tua beleza.
Aliás querida, nunca perguntei se gostou do nome que lhe dei. Lousiene parece meio francês, não parece?

Feliz dia dos namorados, minha querida. E que nosso amor dure para sempre.


E esse foi um conto de Dany Fernandez

Bom gente, quem escreveu essa doideira  fui eu mesma, aqui do Blog! Se curtiu esse conto, quer trocar ideia ou me dar uns toques, é só comentar aqui embaixo! \O/
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