Conto - Entre nomes e tapetes

em terça-feira, 12 de julho de 2016

Imagem: http://imphic.ning.com/
— E então, vai me contar hoje? — Perguntou Lorena, indo direto ao assunto.

— Ora pois, contar o quê? — Ele sabia muito bem sobre o que a moça estava falando. Lorena tinha aquela curiosidade mórbida. Desconcertante.

— Ah, por favor. Quantas vezes vou ter que vir aqui, para satisfazer minha curiosidade? Acho que não me responde só pra ver se eu volto.

Ele riu alto. Lorena era engraçada, precisava admitir. De alguma maneira sabia — ou imaginava — que ela estava fazendo biquinho, fingindo-se amuada.

— Acho que está dando certo. — respondeu o tecelão, cruzando os braços. — Você sempre volta, não é? Sou cego, mas não sou burro, garota. Sei que gosta de conversar comigo, afinal, que te importa como perdi a visão?

— Ahá! “perdeu a visão”, hein? Ótimo, agora sei, pelo menos, que não nasceu cego. Já que tivemos esse avanço, por que não me conta como aconteceu?

 — Ó raios, mudou de universidade? Largou o design e rumou para investigação? É repórter agora?

— Minhas perguntas irritam?

— Ah Lore, não é que me irritam, exercitam meu humor. — Não dava pra ficar zangado com aquela figura. Até aquele momento, Lorena era uma voz. A voz de alguém quente demais.

— Sei que minha curiosidade é mórbida e tal, você já me disse isso antes. Mas é que, sei lá, você sabe um monte de coisa sobre mim. E o que eu sei de você? Que nasceu num fim de mundo chamado arrolo e que aprendeu a fazer tapete lá. E o que mais? Tá, você tem um ótimo gosto musical e...

— É Arraiolos. Vila de Arraiolos. — Talvez passasse uma vida inteira antes que ela aprendesse o nome de sua cidade natal. O que a família diria daquela moça amalucada? Nada. Ele não voltaria a Portugal tão cedo. Nem tão tarde. Sacudiu a cabeça. Estava a fazer planos com uma desconhecida? Mau agouro.

— Tanto faz. — Ela retrucou, sacudindo os ombros. Ele conseguia ser um babaca com aquele ar de superioridade. Com aquela reserva idiota. Custava contar por que tinha ficado cego? E se ele contasse, deixaria de ir vê-lo?

— Lembre-se, eu não sei tudo sobre você ainda. — disse ele, interrompendo os pensamentos desenfreados de Lorena — Nunca senti seu rosto. Não sei como é seu cabelo, por exemplo.

— Não seja por isso! — Aproximou-se, pegando as mãos do tecelão e pondo-as sobre o rosto.

— Ora pois, não preciso tocá-la para saber que é, de fato, uma pessoa linda.  — a voz saiu num sussurro grave.

— Hun? — O que ele disse mesmo, que ela era uma pessoa linda? Como ele era fofo. Ou muito esperto. Ou...

— Você é gay? — Disparou a queima roupa, arregalando os olhos, como se tivesse feito uma descoberta genial.

O tecelão suspirou.

— Depende do contexto.  — começou calmo, partindo aos poucos para rispidez. — Sou gay porque não a apalpei? Sou gay por que já fiquei com outros homens? Sou gay por que me dediquei a conhecê-la ao invés de transar o mais rápido possível? Eu sou uma pessoa, Lore. Antes de ser meu corpo, antes de escolher os parceiros de cama. Sou um individuo com a liberdade de ser o que quiser, pois não estou preso a rótulos. Sou cego, mas acho que enxergo muito mais do que você. — Aborreceu-se mais do que pretendia.

Lorena assobiou, como quem diz: “que bela lição de moral”.

— Sabe... acho que a sua cegueira te deu alguns méritos e tal. Mas também te deixou meio babaca! Esse papo de sou cego, mas sou ótimo, sou cego, mas sou bem sucedido, sou cego e não preciso provar nada, e daí que você é cego seu idiota? Isso não te faz melhor ou pior do que ninguém!

O artesão retesou, endireitando-se no banco do tear. Talvez tivesse sido muito estúpido. Mas ela também não era nenhuma dama, por assim dizer. Passinhos decididos se aproximavam. Mãos pequenas e macias tocaram cada lado de seu rosto. Um narizinho firme encontrou com o seu. Irritante. Ela era irritante.

— Antes de me dar essa aula de humanas, eu diria que te acho muito gato. E admito, pensei várias vezes como seria ir pra cama com você. Mas agora, eu só posso dizer que você é lindo. Uma das pessoas mais lindas que eu conheci e me sinto honrada por isso. E tem mais. Eu também quero ser uma pessoa antes de ser mulher ou hetero, ou gostar de homens mais velhos, charmosos, cegos e autossuficientes.

— Lore... — Engoliu o resto da frase. Não ia admitir que ela o encantava. Não ainda.

— E claro, conto com você para me ensinar isso, porque se eu ficar sozinha vou achar muito difícil e desistir. Sabe como é, nunca fiz planos de evoluir e me tornar uma pessoa melhor e tal.

— Você é incrível, sabia? — Falou com mais admiração do que pretendia. Mau agouro.

— Rá – Rá. — Lorena estava, realmente, muito sem graça — Vindo de você eu até acredito. Seus tapetes são incríveis também. Algum deles vai ter meu nome?

— Vou pensar no seu caso. Ajuda saber que há uma chance?

— Ai caramba! — Bateu na testa como se um mosquito a tivesse picado, mas era só a lembrança de que precisava ir. — Está na minha hora!

— Você vai voltar? — Estava pensando se não a tinha assustado com aquela conversa de ser pessoa antes de ser corpo. Mas ele era assim, não era? Um dia ela descobriria, de qualquer forma.

— Claro ué, ainda não me contou como perdeu a visão. É melhor inventar uma coisa fantástica para fazer valer a pena esse suspense todo. — respondeu, saindo apressada depois de estalar um beijo na bochecha do artesão.

Sozinho, deixou as mãos passearam sobre a nova trama em que estava trabalhando. Era delicada, apesar do emaranhado de texturas que tinha escolhido. Havia uma harmonia confusa na forma como organizara os fios. Suspirou. Delicada e confusa. Talvez chamasse seu novo trabalho de Lore, afinal.


E esse foi um conto de Dany Fernandez

Bom gente, eu sou a Dany aqui do blog mesmo! Esse conto escrevi durante o módulo 2 do curso escrevivendo, com Walter Tierno e Giulia Moon de mentores. XD Se curtiu esse conto, quer trocar ideia ou me dar uns toques, é só comentar aqui embaixo! \O/

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