terça-feira, 29 de março de 2016

Conto - Clarisse

Clarisse dormiu com olhos virados para dentro. Ela nunca soube o que havia dentro de si e resolveu descobrir. Encontrou escuridão e dor onde deveria haver amor. Caminhando nos becos escuros da própria mente, descobriu uma corda presa a um muro de musgos. 

Escalou e pulou para o outro lado. Seguiu uma borboleta lilás fosforescente e chegou a uma janela que mostrava brumas densas lá em baixo. Só então, Clarisse percebeu que estava numa torre muito alta. Uma torre inatingível. Entendeu nesse momento, que estava dentro de sua própria alma! 

Olhando ao redor, Clarisse viu lápides de todas as fases de sua vida. Fases enterradas ― pensava ela — no sentido literal da expressão. Espantou-se. 

Tentou correr, assustada. As lágrimas embaçavam a vista e suas pernas pareciam feitas de chumbo. Cada passo era uma penúria insana... seus pés estavam grudando no chão e tornando-se parte dele. 

Clarisse começou a cavar suas pernas com as unhas, a fim de livrar-se de sua prisão. Pareceu um século o tempo que levou para amputar-se. As lágrimas lavaram o sangue das feridas de suas mãos quase sem pele, expondo ossos frágeis, prontos para serem esmagados. 

Arrastando-se pelos corredores — pois os pés haviam sido deixados para trás― ela buscava por uma saída. Mas todos os caminhos da torre levavam de volta à saleta com lápides com janela retorcida. 

O que restou de seu corpo, estava ficando cada vez mais enegrecido e Clarisse sentia, já começava a fazer parte de toda sua escuridão mental. Aquele lugar era tão frio. Como uma alma podia ser tão gelada? Mais uma vez encontrou-se diante da janela.

O que poderia haver além daquelas brumas lá em baixo? Nada poderia ser pior do que aquele labirinto sem entrada e sem saída. Fechou os olhos com muita força e atirou-se pela janela. 

Passou tanto tempo caindo que não sabia quanto tempo passou mergulhando no abismo. Lembrava apenas da sensação de liberdade, caindo... caindo... até finalmente seu corpo sentir o impacto surdo sobre os arbustos cheios de espinhos, perfurando a carne já tão machucada.

Lá embaixo, havia um denso nevoeiro. Clarisse sentia ardência em todo o corpo, como se uma febre consumisse seus músculos. Para sua surpresa, seus pés estavam nascendo de seus tornozelos. Aquela era mesmo uma cena peculiar: seus ossos retorciam-se para que novos pés nascessem. 

Aturdida, Clarisse caminhou pelo jardim seco e descuidado. Atravessou um portão enferrujado e deixou o calor do sol intenso acariciar suas pálpebras. 

Clarisse acordou com os olhos virados para fora e nunca mais retornou para dentro de si mesma.

E esse foi um conto de Dany Fernandez
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