segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Resenha - Alcateia Lua Carmesim

Autor: Eddie Van Feu
Gênero: Ficção / Fantasia / Aventura
Páginas: 336
Editora: Linhas Tortas

Alcateia – Lua Carmesim é um romance. Um romance lupino, como o próprio título sugere. O considero dessa maneira, muito embora em sua ficha catalográfica ele esteja como “Ficção Fantástica Brasileira” ou “Histórias de Aventuras”. – Mas Dany, quem é você para realocar uma obra? Uma leitora respondo. Satisfeito? Não? Então senta que lhe contarei uma história…
Na França do século XVII, havia uma sociedade de seres encantados, pouco conhecidos, que viviam em cidades secretas, que no universo Alcateia, receberam o elegante nome de “Châteus”.
Estes seres encantados passariam por humanos comuns não fosse a rara habilidade que possuíam: Podiam se transformar em lobos todas as noites e sob a influência da Lua Cheia, podiam se transformar em feras letais! Não, definitivamente não estamos falando de lobisomens, mas de homens lobo, sacou? O que para sociedade humana de mente minúscula seria uma maldição, para a sociedade dos Châteus era um dom. Logo, temos os valores invertidos e para organização Lupina, não poder se transformar é o que de fato seria uma maldição.

Eis então que vos apresento o protagonista da história: Philippe Du Noige, filho de um homem lobo e uma mulher humana, por tanto um mestiço, e como tal, devidamente tratado como um pária pelos membros da sociedade lupina auto intitulada como “pura”. Philippe é órfão, vive em um lugar em que a grande parte dos habitantes o hostiliza. Atente que eu disse “a grande parte”, por tanto, ele ainda tem amigos, poucos e fiéis. Devido a tantas humilhações, e por ter crescido só, o nosso rapaz possui uma personalidade forte, quase cínica, apesar do bom coração que está sempre dividido entre a esperança, o rancor e o amor.
Acompanhamos a saga de Philippe em sua luta cotidiana para ser aceito, para não deixar arrefecer a esperança dos dias melhores que estão por vir, quando finalmente se transformar e provar a todos que afinal, ser mestiço não lhe diminuía o valor. Digamos que essa transformação não acontece exatamente como o esperado, e acaba virando o Châteu das Vertentes de cabeça para baixo. Graças a isso, Philippe se vê nos bastidores da disputa ao trono do Clã dos Lobos, apoiando incondicionalmente Prateada (de quem ainda não falei aqui, mas que tem importância fundamental na saga Alcateia, por tanto, sugiro que leia Alcateia – Prateada, livro que precede o Lua Carmesim ).
Em Lua Carmesim temos um nítido aprofundamento na sociedade secreta dos lobos, e como em toda sociedade que se baseia em aparências, títulos de nobreza e falsas honrarias, vemos o frágil equilibrar dos acontecimentos e o "constante pisar em ovos" em que os personagens se encontram.
Uma das coisas mais impressionantes na história é ver como um “mestiço” é mais fiel à vida dos seres encantados que o próprio povo que vive sob a alcunha de puro. Povo esse que de tanto odiar os humanos está se tornando uma cópia fiel dos mesmos. E é nesse contexto que passo após passo, atitude após atitude, Philippe prova seu valor à sociedade lupina a ponto de ter um reconhecimento que jamais poderia imaginar, embora sempre tivesse sonhado com isso. E esse reconhecimento vem através do tecer da amizade sincera, de fazer o certo mesmo quando ninguém está olhando, de manter o orgulho de ser quem você é, ainda que todo mundo duvide disso e tente lhe provar que você não vale a pena. 
Some ao cenário dessa história representantes despudorados da Igreja medieval, magos malignos, vampiros loucos (e à sua maneira divertidos!) para por tudo abaixo com um simples estalar de dedos, fadas magníficas, vilões tão cruelmente ruins ( guarde bem o nome Ravin D’Envier) que deixariam rancor até em um monge, e o resultado será o trabalho rico e dedicado com que a escritora nos presenteia.

A história se constrói de maneira objetiva e vemos em Philippe alguém que apesar de tudo o que passa, mantém o coração limpo, e a alma cheia de esperança. Ele me faz pensar que, por mais que as coisas pareçam ruins, sempre haverá uma luz no fim do caminho e essa luz não é outra coisa além de nossa fé. Acompanhamos o seu amadurecimento e as suas angústias habilmente tecidas numa trama que de tão bem traçada nos prende à história que, de uma maneira ou de outra nos encanta e espanta! Encanta pelas paisagens, pelos detalhes em cada personagem, pelos rumos que os acontecimentos tomam. E espanta pela crueldade inerente de alguns personagens, que parecem tão assustadoramente humanos.

Quando terminei de ler a última página, fechei o livro e senti o personagem da capa me interrogando com seus olhos rubros e seu semblante com um quê de irônico e implacável. Por um instante suspirei e revi as cenas, desde as mais sublimes até as mais chocantes. E a conclusão que cheguei é que fui irremediavelmente cativada por esse universo. Não há como viajar ao "Châteu das Vertentes" sem que um pedaço do coração fique lá. A verdade é que havia um grande silêncio, daqueles que precedem uma tempestade que abala as estruturas do lugar em que cai. Demorei um tempo inédito para conseguir falar desse livro, dada a profundidade da história e da intensidade com que os personagens esculpiram suas memórias em minha imaginação. Eram muitos sentimentos, cores, perfumes, transformações e paisagens querendo sair ao mesmo tempo pela ponta da caneta, e pela primeira vez, não sabia de que maneira começar uma resenha.
E depois de tudo isso me diga então, do que se trata Alcateia – Lua Carmesim, se não de um maravilhoso romance?
 Com a escritora Eddie Van Feu durante o lançamento
de Alcateia Lua Carmesim! Adoro essa foto!




O meu exemplar consegui no lançamento em 2013, mas é super fácil conseguir o seu aqui : www.linhastortas.com , e ele ainda vem autografado! Até a próxima Barateiros! 
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