terça-feira, 1 de novembro de 2016

Conto ZIG - Parte 03


Cara, eu tinha que parar com essa mania de dormir em qualquer lugar. Sentei devagar, e mais devagar ainda abri os olhos. Pisquei algumas vezes até entender onde estava. Uma ressaca de sono em excesso deixava tudo mais lento. Uma névoa fumacenta se espalhava ao meu redor. Você já ouviu falar que as pessoas ficam um pouco burras quando acordam? Bem, eu não sou exatamente uma pessoa, mas comigo não é diferente. A burrice pós sono me acompanha. Experimentei mexer o pescoço. Dolorido.

Através da neblina reconheci os móveis. O teto branco. Sim! Eu estava no apartamento de Vinni! E não era ele ali, bem na minha frente, sentado sobre a mesinha de centro? Os olhos dele estavam injetados, com manchas roxas ao redor. A boca escurecida. A pele antes clara, agora parecia amarelada. E as mãos tremiam, segurando um cigarro já no fim.

— Er... oi? — Tentei começar um diálogo. Vinni continuava me encarando. Levou a bituca de cigarro à boca, deu uma última tragada e por fim esmagou o que restou num cinzeiro ao seu lado.


— Sabe — Começou ele. — O sentimento de culpa pode gerar alucinações. Devo estar num grau muito elevado, pois estou ouvindo minha alucinação falar comigo.

Só então percebi que ele falava para um aparelhinho. Um tipo moderno de gravador.

— O que aconteceu com você? — Perguntei.

— Matei minha melhor amiga. Todos dizem que foi um acidente. Eu a empurrei do oitavo andar. Eu sou um assassino. Mas ninguém acredita. A justiça não quer me prender. Eu sou muito covarde para tirar minha própria vida.

Comecei a me preocupar de verdade com o estado do meu amigo. Ele parecia estar em outra dimensão. Suspirei.

— Mas Vinni, realmente foi um acidente, ok? Você estava bêbado demais. E eu que estava no lugar errado. Quem, em sã consciência, ficaria se equilibrando num guarda corpo?

— Interessante. — Continuou ele para o gravador. — Estou projetando palavras de conforto em minha alucinação. Como ela poderia estar aqui, quando na verdade a enterrei semana passada?

— Vinni. Pare com isso. — Falei com firmeza, tirando de sua mão aquela porcaria prateada. — Eu estou aqui de verdade. É sério. Eu sei que eu morri, mas estou de volta, tá? Não sei como, mas estou. Você não me matou, foi um acidente.

— Não, não foi. — rebateu, exasperado. O estado dele era péssimo. Tentei confortá-lo afagando seu rosto. A barba falhada lixava de leve a pele de minha mão. Ele fechou os olhos.

— Eu gostaria tanto que isso tudo fosse verdade. Que você, por algum milagre estivesse viva, Zig.

— Mas é verdade, cara, eu estou aqui. Continuo vivendo. Não sei como.

— Então existe vida após a morte? Você veio buscar sua vingança? — Os olhos dele, não pareciam fazer uma pergunta. Aquilo era mais uma súplica.

— Não Vinni, claro que não. E também não sei o que há do outro lado, já que estou nesse aqui.

— Me leve com você, Zig. Arraste-me para o inferno. Eu mereço. Eu... eu te matei!

Existem algumas coisas ridículas demais. Como por exemplo, por que ele achava que eu iria para o inferno? Não que eu ache que exista um, claro. E além disso, também existem algumas coisas que eu não aguento. Existem algumas coisas que bloqueiam meus pensamentos e bons sentimentos. Aquela cara de “me odeio e quero morrer” que o Vinni estava usando, corroía meu pequeno estoque de paciência.

E antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, minha mão explodiu na cara dele.

— Pare com isso agora! — vociferei. Embora não estivesse com tanta raiva assim. — Que porcaria de assassino você é que fica choramingando a morte de sua vítima? Eu não entendo muito bem dessas coisas, mas alguém que mataria outra pessoa, assim de boas, não se trancaria em casa e desistiria da própria vida, se enterrando em auto pena! Acorda seu cretino! Acorda! — Só quando terminei o discurso, percebi que o fiz estapeando a cara do Vinni.

O olhar dele tinha mudado. Agora sim, parecia mais vivo, mais acordado.

— Então Vinni, você pode ser muita coisa. Inclusive meu melhor amigo. Mas não é um assassino. Tire essa merda da sua cabeça e aceite que eu continuo vivendo.

Ele começou a rir. Achei que era um bom sinal até começar me preocupar de novo. A risada parecia não ter fim, embora o oxigênio dele sim. Quando pensei se deveria esbofeteá-lo novamente, ele parou.

— Você... Você me chamou de cretino? Eu realmente estava lamentando sua morte! Eu vi sua cabeça disforme, seus miolos espalhados pela calçada, ok? Eu vi! Eu enterrei você. E por isso sei que estou tendo alucinações. Mas parece que mesmo quando eu imagino, você continua sendo essa escrota! Você tem problema garota, não sabe confortar ninguém! — Ele esfregava com vontade as bochechas vermelhas. A essa altura eu não sabia mais se a vermelhidão era de raiva ou por causa dos meus tapas.


Eu tinha que fazer alguma coisa, para tirar o meu amigo dessa depressão pós-assassinato-não-intencional. Ele tinha me enterrado, não tinha? Ahá, talvez seja isso, então. Só talvez.

Continua na próxima terça!

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