terça-feira, 8 de novembro de 2016

Conto ZIG - Parte 04


— Não tenho certeza se quero fazer isso, Zig. — Disse Vinni, jogando uma bituca no chão e amassando com o coturno.

Estávamos no muro dos fundos do cemitério Necrópole. Era meio da tarde de um domingo. Na Avenida Cardeal Arco Verde, quase ninguém passava. Um carro ali, outro aqui. E ninguém mais à vista. Era estranho pensar que no dia seguinte aquele mesmo lugar estaria apinhado de gente, de carros e alto-falantes, de lojas berrando suas promoções. Mas naquele momento, não. Era tudo calmo.

— Não vale dar pra trás agora. — Respondi. — Você que quis vir de dia. Podíamos ter esperado até a noite.

— Nem pensar! Detesto cemitérios. São horripilantes de dia, imagina à noite! Nem pensar, sua maluca!

Pulamos o muro que não era tão alto. Do outro lado nos apoiamos sobre uma lápide alta. Entramos rapidinho.  E começamos a caminhar apressados entre os jazigos. O cemitério parecia ser bem antigo.

— É por aqui. — Vinni falou apontando para um corredor estreito formado por uma fileira de lápides e o muro que havíamos acabado de pular.


— Ual! Isso é tão excitante! — Falei sem me conter. Era tão divertido! Estávamos prestes a descobrir o que havia acontecido com meu corpo.

Como não dava para andarmos lado a lado, ele foi na frente, mostrando o caminho e eu ia logo atrás.

— Vinni... — Chamei puxando a manga do casaco dele.

— O que é? — Ele respondeu sem olhar para trás.

— Por que aqui? Por que, sei lá, não me queimou? Você disse que não gosta de cemitérios...

— Eu queria que você ficasse num lugar onde eu pudesse te encontrar. Me imaginei vindo aqui te deixar flores e conversar com o nada, igual as pessoas fazem nos filmes. Se eu soubesse que você ia ficar me assombrando eu teria te cremado mesmo.

De um jeito estranho o Vinni era uma pessoa muito fofa! Tem pessoas que são fofas e não precisam fazer nada para isso. Mesmo que elas teimem em interpretar o papel de ranzinzas.

Andamos naquele lugar esquecido que fedia a coisas velhas, lamentos e lágrimas por mais alguns minutos. Já estava me perguntando se ele sabia mesmo para onde estávamos indo quando paramos.

Uma árvore linda estava em nossa frente, a copa frondosa, coalhada de flores amarelas lindíssimas. O chão ao redor da árvore estava coberto das mesmas flores, formando um tapete redondo e irregular. Tive a sensação de que o tempo havia parado. Do lado esquerdo estava minha lápide, feita de uma pedra branca muito bonita, escrito ZIG.

— Poxa Vinni, é tão lindo! Nossa! É tão lindo! Muito obrigada!

Ele ficou mudo, olhando para mim e para a lápide e para a árvore.

— Você acha mesmo que preciso abrir seu túmulo, Zig?

Fiquei de frente para ele.  Nossa diferença de altura sempre me fazia ter que puxar seu rosto para mim quando queria atenção.

— Sim. — respondi. —Se não abrirmos você nunca vai se convencer de que voltei de verdade. Sem contar que estou com muita curiosidade para saber o que aconteceu com meu antigo corpo.

Ele suspirou. Tirou o casaco e começou o trabalho minucioso de dobrar as mangas da camisa de algodão. Dobrou também a calça jeans até os joelhos.

Com muito esforço empurrou a tampa de pedra branca, liberando a abertura da cova. Pulou para dentro do buraco e abriu meu caixão. Joguei a lanterna para ele. Amarrei uma corda na árvore e joguei a outra ponta para o buraco onde Vinni estava.

Me agachei na borda da cova, posicionando a lanterna para que Vinni pudesse ver melhor lá em baixo. Ele olhou para mim, como quem pedisse permissão para violar meu descanso eterno. Assenti com a cabeça e ele forçou a tampa do caixão.

Tinha uma versão bem ruim de mim lá dentro. A pele parecia uma gosma velha e queimada. Uma versão derretida. O cabelo era um ninho roxo, semelhante a uma palha de aço. Essa aparência pós morte era horrível! E contra todas as probabilidades, não fedia. — Pelo menos isso — pensei.

Vinni olhava para aquela coisa no caixão com atenção. Olhava de volta para mim.

Notei que meu amigo estava suando muito, incomodadíssimo. Seu corpo estava tremendo.

— Que brincadeira é essa, Zig? — Perguntou, a voz mais baixa que o normal.
— Eu também não sabia que meu corpo ficava assim. — Tentei explicar. — É esquisito, né?
— Isso é uma múmia derretida! Isso... isso não é você!
— Eu fui isso aí, sim! — Discordei.

Vinni abaixou e tocou naquela coisa derretida que era o cadáver. Um pedaço grudou em seu dedo e ele começou a sacudir a mão, enojado.

— Isso é impossível... — Vinni parecia péssimo. De repente era como se ele estivesse para cair e ficar por ali mesmo, na minha cova. — Preciso sair daqui. 

— Suba, amarrei firme a corda!


Empapado de suor, Vinni subiu de volta e o ajudei a repor a tampa da lápide. Seu peito subia a descia com a respiração rápida. Ele não parecia mais convencido de que eu não era uma alucinação.

Um silêncio esquisito havia se instalado entre nós.  Não sabia o que dizer, assim como não sabia o que estava se passando na cabeça dele. Eu bem que podia ter esse poder, né? Ler mentes... Pensando bem, melhor não. Quando escuto um elogio mesmo que ele seja falso, gosto que seja um elogio.

Ouvimos um berro e nos assustamos. Um velho baixinho corria em nossa direção com um cacetete!

— EI VOCÊS DOIS!!!

Não precisamos falar um com o outro para saber o que devíamos fazer. Corremos como se não houvesse amanhã. Corremos desesperados. De vez em quando olhávamos para trás para saber se o velho estava mais perto e apesar de não vermos nada, ouvíamos os passos cansados do guardinha.

Chegamos à parte do muro que era mais baixa e pulamos de volta para a rua. Continuamos correndo quadras e mais quadras avenida a cima, até chegarmos à Praça Benedito Calixto. Estávamos exaustos, o coração saindo pela boca. Nos jogamos no primeiro banco que vimos. Vinni arfava.

Quando finalmente ele recuperou o ar, falou quase sorrindo:

— Você ouviu o que aquele velho falou?

— “Ei vocês dois!” Foi isso o que ele disse, eu acho.

— Ele viu você Zig! Ele viu você! — E desatou a rir.

Em seguida me puxou e continuamos subindo a avenida até chegarmos ao metrô. Dentro da estação ele perguntava às pessoas se estavam me vendo.

Todo mundo olhava para o Vinni como se ele fosse uma espécie de doido. Pensamento que eu confirmava, sinalizando com o dedo indicador que ele era mesmo, um bocado matusquela. Claro que estavam me vendo, ora bolas! Eu não era uma alucinação!

— Esse tempo todo... — Ele começou. — Esse tempo todo era só eu ter perguntado se os outros estavam te vendo. Eu não precisava ter violado um túmulo!

— Er... eu também não pensei nisso! Mas foi divertido, não foi?

Naquele horário o metrô estava vazio. Estávamos sentados lado a lado. Vinni segurava a cabeça, como se tentasse entender o que estava se passando.

Voltamos ao apartamento sobreloja. Mal entramos, Vinni me prensou na parede, segurando meu rosto com as duas mãos. Que rude!

— O que você é, garota? — Falou baixo, a voz saiu grave, preocupada. — Já entendi que não está morta, que não estou alucinando. Ou talvez eu já esteja num grau tão alto de loucura que estou fantasiando sem limites...

— Saia de cima de mim. Saia agora.

Ele obedeceu e deixou o corpo desabar no sofá.

— Você sabe quanto custou te enterrar, sua retardada?! Despesas funerárias são altas, sabia? Eu devia ter deixado você lá, espatifada naquela calçada e ter saído de fininho!

— Poxa Vinni, desculpe. Eu não sabia que conseguiria voltar. Isso também é novo para mim, acredite. E você me enterrou num lugar tão lindo...

— Isso é bizarro! Quem é você, Zig? Ou melhor, o que é você? Não venha com essa conversa de que não sabe, de que não lembra. Eu posso ver na sua cara que você sabe.

— Vinni... por favor, eu.. eu não quero falar sobre isso. — respondi, olhando para os meus pés.

— Como assim não quer falar sobre isso? Eu tenho o direito de saber com o que estou lidando! O que você quer afinal, me enlouquecer? Está fazendo um ótimo serviço!

— Confia em mim, pode ser? Eu também preciso de um tempo para entender. — Mentira. Eu precisava era de um tempo para criar coragem. Por que era tão difícil dizer o que eu era?

— Olha, eu tenho um monte de trabalho para fazer. — Disse ele, apontando para a mesinha do computador com pilhas e mais pilhas de papéis empilhadas sobre ela. Era o caos. — vai dar uma volta, some um pouco da minha frente, pode ser?

— Vinni...

— Some garota.


Continua na próxima terça!

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