sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Fantasmagorias

Autor: R. F. Lucchetti
Gênero: Terror | Fantasia
Páginas:96
Editora: Devaneio
#FantasticWorld


Sempre que eu via a capa do Fantasmagorias, ficava intrigada. O tom azul e aquele monte de crânios num lodaçal pantanoso eram um convite para minha imaginação hiperfelitilizada.  E não é que um dia — Nesse Dia — acabei encontrando pessoalmente com o livro e o levei para casa?

No início, eu estava muito tímida. Mas logo me senti à vontade, acompanhada de narradores taciturnos e acontecimentos fantásticos, oscilando entre o assustador e o singelo.

Eu sempre tive um gosto estranho.  Quando criança e boa parte da adolescência, adorava filmes de terror das décadas entre 30 e 70. Bela Lugosi, Christopher Lee e Vincent Price foram, por muito tempo, meus assombrados preferidos.  

Bom, o tempo passou e as sessões de cinema na casa da avó foram deixadas para trás, e com elas ficaram a minha noção de bom terror (que eu só tinha contato novamente nos filmes do Tim Burton), ou seja, aquilo que mexe com nossos medos, mas não nos aterroriza (como os noticiários sanguinários e as contas de luz, obscenidades reais e inevitáveis).

Eu poderia passar páginas e mais páginas falando das minhas teorias pessoais a respeito do gênero de terror e de como meu gosto para o clássico pode feder a mofo e naftalina. Só que não. Pelo menos não hoje.
Esse texto é para ser uma resenha e eu já comecei viajando longe. Bom, isso não deixa de ser um efeito colateral, já que ler Fantasmagorias — que eu chamo carinhosamente de “Fantas” — é viajar no tempo, reencontrar o terror clássico e ainda ter uma palinha de como eram as coisas que inspiravam o mestre Lucchetti.



São catorze contos INTEIRAMENTE ilustrados por Emir Ribeiro, apresentando pequenas notas onde o escritor nos conta o que rolava nos bastidores da criação de cada uma das histórias apresentadas. E isso só aumentou o encanto e a nostalgia. 

Crédito: imagens da página Contraversão



A feiticeira – Conto em primeira pessoa, onde o protagonista precisará enfrentar uma temível feiticeira, ainda que não se dê conta disso.

Ugo, o belo – Um ilusionista que além de charmoso era talentosíssimo, sofre um atentado durante uma de suas apresentações e desaparece logo em seguida, deixando um rastro de mistério.  Eu já estava tecendo mil teorias conspiratórias até chegar ao final e descobrir o segredo de Spoletto, o assistente feioso de Ugo. E não importa o que você imagine. Definitivamente não é o que está pensando.

Gênesis – um conto de pressão psicológica, voltado para sci-fi, onde o protagonista acorda e não encontra viva alma em toda a cidade, apenas cibóres (um tipo de ciborgue a lá C3PO) educados e sem capacidade de responder perguntas. Detalhe: o conto se passa em São Paulo.

Os bonecos de Bruno – Um simpático senhor tem um museu de estátuas realistas. Elas surgem “do nada” e chamam atenção pelo nível de detalhamento. A estrutura textual desse conto, segue como um roteiro e imaginei as cenas tanto em quadrinhos como numa peça de teatro.

Romeu e Julieta – Está entre os meus contos favoritos da coletânea. Sim, é a história de Shakespeare com uma nova roupa, em outro país e novas pessoas. O que me chamou atenção aqui foi o final inusitado, maligno. E não posso falar mais sobre isso.

Sino de Natal – Um conto de cinco parágrafos. E só posso falar três palavras sem cair no spoiler: Gina, Natal e Sino.

O fantasma da prima Lavinia – Outro dos meus top 3 preferidos: Era para ser uma história de amor. Mas não é. Era pra ser de terror, mas também não é. É um conto sobrenatural em todos os detalhes. Principalmente pela interação do protagonista com um fantasma se desenrolar de maneira natural. Você aceitaria conselhos de uma parente? E se essa parente for uma fantasma, ainda aceitaria?

O Lobisomem -  A tensão clássica de um conto de terror está aqui. Nora passa muito tempo sozinha por conta do trabalho do marido. Mas isso não durou por muito tempo, logo apareceu uma nova companhia. Bem assustadora.

O lago - Um dos contos que me fez apaixonar de vez por esse livro: o protagonista É O LAGO. O cenário e o clima é insólito e viajamos na narrativa de uma senhorinha muito falastrona. A forma como a história é tecida vai grudando na pele, a asfixia chegando lenta, através de pitadas de suspense. Me amarrei. Sem mais.

Conversa nas Sombras – Até parece que amei todos os contos de Fantas. Não é verdade. Curti todos, me apaixonei por alguns e me diverti muito com outros. Mas esse aqui é tão insólito que não deu outra: amor eterno à primeira lida. Temos um lindo solar em que os empregados aguardam pelos novos patrões e durante sua conversa percebemos que eles se tratam de uma trupe nada comum. Hehehe

O segredo do professor -  Um professor de química que na verdade era um ex-médico brilhante. Uma caveira e um aluno muito curioso. O resto eu não posso contar. Afinal, é um segredo do professor e segredos a gente não sai por aí contando pra todo mundo, né?

Um perfil nas trevas – Outro conto insólito, dessa vez, falando do quão mórbida pode ser a curiosidade humana e o quanto a imagem é importante para nós, relegando  a essência e a pureza das coisas e pessoas a um grau inferior. Aplaudi de pé.

O monstro de ouro verde – Um conto estilo o médico e o monstro. Uma série de mortes violentas e inexplicáveis passam a ocorrer numa cidadezinha do interior e um repórter bisbilhoteiro vai até lá investigar... Cenário bucólico, protagonista cético e um final dançando entre o trágico e fantástico. Fim.

Anjo da noite – Não é exatamente um conto, mas também não deixa de ser. É um poema inspirado na ilustração que o abre e fala, de forma onírica sobre uma vampira que veio trazer a imortalidade para alguém. A “voz” do poema não se apresenta como homem ou mulher. Essa voz apenas é. E a vampira bem poderia ser a morte vindo buscar alguém. Em fim, é um poema e cada um interpreta da maneira que lhe convier.

O Formato escolhido para o livro não é muito usual, e me lembrou bastante aquelas HQs e publicações antigas de terror. A diagramação tornou a leitura um pouco desconfortável já que leio muito em transporte público e as colunas de texto irregulares me causavam cansaço, além do formatão do livro exigir bastante espaço para ser manuseado.

Me chame de louca, mas até essa característica eu achei “charmosa.” Afinal, esse não é um livro para ser lido de qualquer maneira ou em qualquer lugar. Fantasmagorias, é por si só, um evento literário de terror e fantasia e como tal, exige atenção e espaço próprios.

E foi assim que me vi, depois de muito, muito tempo, procurando um puff confortável e uma iluminação adequada para degustar a leitura, longe da correria cotidiana, dos olhares curiosos e das cotoveladas do metrô.

Saldo final da leitura: Me rendeu uma saudade de um tempo que não vivi, mas do qual pude ver fragmentos. E são esses pedacinhos de estória me fizeram sonhar. Como todo bom livro deve ser.
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