terça-feira, 25 de outubro de 2016

Conto ZIG - Parte 02


Desde sempre tive medo de me perder. Não de me perder do caminho de casa. Mas de perder minha consciência. De, de repente, eu não ser mais eu. E foi assim que descobri que existe um ponto entre a loucura e a sanidade. Um ponto imperceptível.

Descobrir onde ele fica é muito importante para não atravessá-lo. Isso só se você desejar ser normal para sempre. Eu atravessei esse cercado de madeira podre e arame velho há muito tempo. Tanto tempo que não lembro quando nem onde. A verdade é que ninguém liga se você não é quem deveria ser. Porque no final ninguém sabe. Só você mesmo. E é isso o que importa.

Acho que a minha mente ficou resvalando pra lá e pra cá antes de acordar numa viela fedorenta. Enquanto me erguia e tentava entender o que estava acontecendo, olhei para o céu e percebi a noite. Um poste na esquina mal iluminava o lugar.

Uma coisa é certa: preciso começar a dormir em lugares mais confortáveis. Tirei uma casca de banana da cabeça, meio grudada no meu cabelo. Quem me jogou nessa lata de lixo?


Quando despertei do sono de morte, lembrei-me da última coisa que ocupou minha mente antes de bater as botas. Por isso tenha cuidado com seus últimos pensamentos. Eles podem revelar coisas que gostaria de esquecer. Então, só por precaução, quando for morrer, tente não pensar em nada. Vai que você volta, né?

No meu caso, lembrei de uma coisa importante. Quem eu sou. Ou melhor, o que eu acho que sou. Alguma coisa assim. Então, por um instante, tudo começou a fazer sentido. Essa compreensão estranha que eu tenho sobre tudo e ao mesmo tempo sobre nada. Essa minha dificuldade de afirmar que sou outra coisa além de mim.

Uma pontada muito forte atravessou minha barriga. Fome. Ainda grogue e testando as pernas, me arrastei para a rua.

Fiquei tão feliz quando li a plaquinha o nome Rua do Grito. Eu ainda estava em São Paulo! E pelo visto, não muito longe da casa do Vinni.  Quanto tempo teria se passado desde que morri? Porque, sério, eu sei que virei patê, depois virei farofa e voltei. Isso é fato.

Conheci o Vinni na frente de uma balada. Lá dentro tocavam cover de David Bowie, enquanto eu vomitava gosmas na calçada.

Quando eu ainda estava tentando entender a função da vida nessa dimensão, ele apareceu, estendeu a mão e me ofereceu um táxi para ir para casa. Eu não tinha para onde ir. A não ser que ele tivesse um táxi interdimensional, ou coisa do tipo. E eu também não queria sair dali. Só queria continuar curtindo minha zonzeira pós existência.

Talvez eu estivesse parecendo algum tipo de débil mental. Ele me levou para sua casa, curou o que pensava que era a minha bebedeira. E então ficamos amigos. E eu fui ficando por lá também. Era divertido acompanhá-lo. Vinni assistia séries de ficção científica e coisas sobrenaturais. Mas não era fã de nenhuma. Só preferia isso à novela.

Nos últimos dias antes de eu morrer, estávamos vendo documentários e mais documentários de extras terrestres e afins. Mas tirava sarro de tudo. Talvez ele quisesse que eu pensasse que não ligava para nada daquilo.

De repente um alarme disparou na minha cabeça. Quanto tempo deveria ter passado? Quanto tempo eu passei vagando pelo escuro, me agarrando ao meu último pensamento?

Puxei o capuz do moletom e enfiei as mãos nos bolsos. Apertei o passo e logo cheguei à porta de ferro que dava para um apartamento de sobreloja, no final da Silva Bueno. Apertei o interfone. Uma, duas, três vezes! Vinni não poderia ter um sono tão pesado!

Quando eu estava pensando em simplesmente deitar e dormir ali mesmo na calçada, ouvi o ferrolho sendo puxado do lado de dentro, seguindo do som de mais um monte de trancas. Vinni era paranoico.

— Puta que pariu! — Foi o que ele disse. A cara do meu amigo era de puro pavor. Ele caiu para trás e começou a rastejar de costas na escada. Era bem patético vê-lo se arrastar como um covarde. Se bem que eu deveria estar parecendo um tipo de assombração. Não tinha parado para pensar a respeito. Dãããr.

O que eu poderia dizer para alguém naquele estado? Será que havia alguma coisa errada comigo? Com a minha cara, sei lá. Eu estava com fome e meu corpo muito cansado. Não ia dar para acalmar ninguém naquele momento. Eu só disse que estava tudo bem.

Fechei a porta com todas as trancas de cima a baixo, virei a chave principal duas vezes e subi as escadas, passando por um moço estupefato que tremia muito. Fui direto para a cozinha,  engoli com voracidade as poucas coisas que encontrei. Entre elas havia um delicioso pote de manteiga. Com o estômago entupido, me arrastei até a sala e me joguei sobre o sofá. Para um sono bem vivo dessa vez.



Continua na próxima terça!

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