segunda-feira, 6 de março de 2017

Palomar: O livro que me fez amar escrever

Ou a minha mania de me apaixonar por pessoas mortas


Eu tinha acabado de fazer 16 anos e um livro veio parar em minhas mãos: Palomar, de Italo Calvino. Eu tenho esse livro até hoje. Num artigo passado, nós já falamos daquele livro que nos faz gostar de ler, quando descobrimos o que realmente nos agrada. Mas esse post é diferente. Estou falando de um livro que me fez ter vontade de escrever. E de escrever de verdade.

Como eu já disse, tinha apenas 16 anos e lia de tudo: fantasia, aventura, romances policiais (amém mestra Agatha e Conan Doyle), misticismo, literatura clássica etc, mas Palomar foi o primeiro livro que me fez pensar de fato no que estava lendo e que me fez transpor a leitura em vivência. De repente, eu mesma era Palomar, observadora do meu mundo, do macro e do microcosmo.

Naquela época eu estava descobrindo o mundo de fora, mas com esse livro eu descobri que havia um mundo inteiro dentro de mim. Um mundo que conversava com o lado de fora em pequenas coisas. E eram exatamente essas pequenas coisas que precisavam falar: um sonho, uma vontade, o vento que bate na cortina e que, sem que ninguém perceba, desenha uma valsa de tecido e ar.

Finalmente eu tinha entendido: havia ainda muito o que falar sobre as coisas não ditas e que até o silêncio tinha as suas próprias histórias.

Guardei esse livro como um tesouro, vira e mexe torno a lê-lo, só para lembrar o motivo de ainda escrever.

Durante a adolescência mudei várias de casa e a cada mudança mais machucados foram feitos no livro. Já resistiu até mesmo a chuvas! 
Antes de Palomar eu já ensaiava minhas escritas, claro. Aqui e acolá um ou outro conto, nada demais. Mas depois dele eu tinha um objetivo. E esse objetivo ficou tão enraizado, tão entranhado dentro mim, que mesmo depois desses anos todos, ainda busco em minhas resenhas aquelas coisas não ditas sobre os livros que leio.

A sim, meu apaixonei pelo Italo tanto quanto era apaixonada por Machado de Assis, que conheci ainda na escola ou pela Clarice Lispector ou Tolkien. Li outros livros do Italo, como Cidades Invisíveis, e Sob O sol-Jaguar, mas nenhuma outra obra dele fez casa dentro de mim como Palomar. 

E olhando essa lista, eu percebo quantos amores platônicos eu tive: dezenas de escritores mortos bem antes de eu vir ao mundo.

Claro que depois minha leitura se modernizou um pouco e conheci o trabalho de muitos autores bem vivos. Mas se eu puser na balança, minha mania de me apaixonar por pessoas mortas nunca me deixou de verdade.

Nesse post eu realmente não estava a fim de contar a história desse livro, pois não se trata de uma resenha. Mas acho que, se eu não fosse eu e estivesse lendo esse texto, provavelmente não entenderia lhufas e ainda sentiria falta de mais informações a respeito do livro. Então aqui vai a transcrição da contra capa:

“Palomar é o nome de um famoso observatório astronômico que durante muito tempo ostentou o maior telescópio do mundo. Por intencional ironia, é também o nome do protagonista destes textos curtos de Italo Calvino, pois este senhor Palomar é todo olhos, mas funciona quase sempre como se fosse um telescópio ao contrário, voltado não para a amplidão do espaço, mas para as coisas próximas do cotidiano. É como se ele nos dissesse que as grandes questões do mundo e da existência também estão presentes em cada objeto que observamos, em cada cena que presenciamos, e que tudo é digno de ser interrogado e pensado.
Em 
Palomar, fazendo uma sábia mistura de descrição, narração e reflexão, Calvino revela a mesma inquietude de suas outras obras, sem esquecer aquela pitada de humor refinado que contribui para a leveza de seus textos. Em meio a suas reflexões filosóficas, por exemplo, o senhor Palomar preocupa-se também com a angustiante questão de como se comportar na praia diante de um par de seios nus.
Palomar foi o último livro publicado em vida por Italo Calvino. 

Prêmio Jabuti 1993 de Melhor Produção Editorial de Obra em Coleção”

No fim, todo mundo tem uma obra que lhe define como pessoa, que acaba fazendo parte de si, mesmo que outra pessoa tenha escrito. Louco né? Acho que é por essa e outras insanidades que nunca consigo me afastar dos livros.

Até a próxima!

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